Reportagem de Roberto Kovalick que eu produzi aqui no Japão. Bem bacana.
Japoneses encontram gatos em bares
June 21st, 2009 · No Comments
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Estrangeiros protestam no Japão contra novo projeto que prevê alterações na lei de imigração
May 25th, 2009 · 4 Comments
A crise econômica deixou bem evidente a situação dos residentes estrangeiros em diversas partes do mundo. E a situação no Japão mostra que não há tantas distinções entre o que anda ocorrendo com trabalhadores imigrantes recrutados para trabalhos qualificados e seus companheiros que arregaçam as mangas naquilo que os nativos não estão afim de fazer.

O Japão ainda tem uma população estrangeira relativamente pequena. São cerca de 2 milhões de gaijin que fazem parte de uma população de quase 128 milhões de habitantes. Tem gente de toda parte do mundo, fazendo os mais diversos trabalhos. Nosso compatriotas, por exemplo, estão, em sua maioria, atuando no setor secundário. Estima-se que pelo menos metade eles encontra-se desempregado no momento. Há ainda os trabalhadores especializados, boa parte deles ex-estudantes que acabaram ficando no Japão, dada a falta de boas oportunidades no mercado de trabalho brasileiro.
Há tempos o país vem se preocupando com o aumento do número de estrangeiros. É uma necessidade real. O país está envelhecendo rapidamente. Mão-de-obra é escassa em quase todos os setores da economia. Por outro lado, o Japão ainda se pensa como uma nação homogênea. Mas, não é necessário muito esforço para ver que diferenças regionais são fortes e as minorias estão cada vez mais visíveis. Por isso, o governo está propondo mudanças na Lei que rege a presença de imigrantes no país.
Entre as mudanças estão a criação de um cartão de identidade com um chip que conteria inúmeras informações pessoais do estrangeiro. O que está causando mais furor é o fato de que esse chip pode ser lido remotamente e suas informações acabarem caindo em mãos erradas. Além disso, há a possibilidade de monitoramento, o que não agrada a ninguém.
Outra mudança que gerou opiniões contrárias está relacionada com as multas para quem não mantiver suas informações pessoais em dia. A cada vez que mudamos de endereço, status de permanência e estado civil, devemos comunicar à prefeitura. Até o momento, não havia sanções para quem não fizesse essa comunicação. Porém, o novo projeto prevê multas de até 200 mil ienes (quase 4300 reais) para os esquecidinhos. Somos, ainda, obrigados a andar com documento de identificação, algo que não é requerido aos cidadãos japoneses. Quem esquecer o cartão de identificação em casa poderá até ser preso, de acordo com o novo projeto! Além disso, o projeto do governo prevê a cassação do visto para quem ficar desempregado por mais de três meses, por exemplo.
Apesar de fortes, as mudanças estão gerando reações tímidas por parte dos estrangeiros que vivem aqui. Na verdade, o projeto já está no Congresso, o que pegou muita gente de surpresa. Grupos de japoneses e estrangeiros que se opõem à medida organizaram passeata no centro de Tóquio, neste domingo. Eu e meu amigão e, agora, parceiro Menandro Barreto Gomes registramos a passeata e produzimos esse vídeo. Não podemos deixar, ainda, de agradecer a colaboração da Pamela Hata (autora das duas fotos deste post), nas entrevistas que fizemos em japonês. Também queremos agradecer a força dada pela amiga Gülüzar Tuna. Dá uma olhada no vídeo.
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Funkeira japonesa lança mini-álbum
April 15th, 2009 · 1 Comment

Conheci a Tigarah há uns três anos, assim que comecei a trabalhar como jornalista no Japão. Fiz uma matéria sobre a cantora que, pode-se dizer, é a pioneira do funk carioca no Japão.

Em 2001, após mais um boom do estilo no Brasil, eu era aluno de cinema no Rio de Janeiro e decidi investigar o fenômeno num documentário. Nasceu Tá Tudo Dominado, um trabalho que até hoje é exibido e arranca reações positivas da platéia.Quase 10 anos depois, não me surpreende o fato do funk ter ganhado o mundo e chegado até o Japão. Mas, há uma coisa que talvez muita gente não saiba: a força dos emigrantes em divulgar a cultura brasileira no exterior. Basta trocar uma idéia com o Tigarah ou outros artistas japoneses para saber do que eu estou falando.
Dá uma olhada nessa pequena matéria em vídeo feita no lançamento do mini-álbum Tigarah! que chegou esta semana às lojas no Japão. O trabalho é apenas uma preparação para o primeiro álbum da cantora que deve sair por aqui no mês de julho, com participações especiais como Deize Tigrona e Mr. Catra.
Ainda quer mais: eu fiz duas matérias com a cantora em 2006 e elas estão disponíveis na rede. Chega lá:
Tigarah - A Rainha do Funk Carioca (Japonês), no Overmundo
Tigarah: A Musa Japonesa do Funk, no IPC Digital
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Kanamara Matsuri
April 15th, 2009 · No Comments

Desde que eu cheguei no Japão que eu estava a fim de conhecer os festivais da fertilidade que rolam por aqui. Um deles é o Kanamara Matsuri (かなまら祭) que rola na cidade de Kawasaki (lê-se “kauassaqui”), bem aqui do lado de Tóquio.
Os festivais têm uma função importante na regrada vida japonesa. É um momento de encerrar um ciclo e de renovar as forças para o início da nova jornada. Também tem uma função de socialização e integração comunitária. E, claro, é um momento de relaxamento, de lazer e de liberação do cotidiano restritivo da sociedade japonesa.
O Kanamara Matsuri, da forma como é organizado atualmente, data do ano de 1977. Um grupo de religiosos e estudiosos empolgou-se com o interesse de pesquisadores estrangeiros nos rituais de fertilidade e nas crenças relacionadas à sexualidade que eram praticadas pelos fiéis frequentadores do Kanayama Jinja (金山神社). O interessante é que no Kanayama “vivem” duas divindades ligadas ao trabalho nas minas. Porém, o templo começou a atrair prostitutas em busca de proteção contra doenças venéreas e mães desesperadas por não conseguirem ter filhos. É que, na mitologia xintoísta, os deuses do lugar, Kanayamahiko e Kanayamahime, nasceram do vômito da deusa Izanami, que padecia das queimaduras causadas em sua vagina durante o nascimento de Kagutsuchi, o deus do fogo. As mulheres que desejam ter filhos procuram o templo que têm, na sua entrada, dois pênis de madeira em tamanho grande. Conta a crendice popular que a mulher que monta num dos pênis do templo consegue engravidar.

A procissão do festival é formada por três andores, ou mikoshi (神輿). O mais antigo deles é o Kanamara Dai-mikoshi (かなまら大神輿)que carrega um pênis de madeira.
Há, ainda, o Kanamara Fune-mikoshi (かなまら舟神輿), dentro do qual segue um pênis feito de ferro, o qual se remete a uma antiga lenda que conta a história de duas jovens virgens em cujas vaginas vivia um demônio. Na noite de núpcias, as jovens castraram seus maridos. Então, para matar os demônios, um pênis de ferro foi introduzido nas duas moças.
O terceiro e mais popular andor é o Elizabeth Mikoshi, que foi doado ao festival pelo grupo Elizabeth, formado por homens que têm como hobby vestir-se com roupas femininas. No alto deste andor segue um pênis rosa que se tornou uma das imagens mais simbólicas da festa. Os seguidores deste andor repetem exaustivamente o mesmo grito: “dekkaimara, kanamara”, que significa “pau grande, kanamara”.

O caráter inusitado do Kanamara Matsuri fez com que o festivai se tornasse popular entre os estrangeiros. Gente de todo mundo aproveita para passar por lá e ver como os japoneses, tão tímidos quando o assunto é sexo, expõem-se em trajes femininos, carregando grandes falos em andores e chupando pirulitos em formato de pênis e vaginas. O festival, também, acabou encampando dois grandes debates da sociedade japonesa atual. Um deles é a campanha de prevenção à aids. Outro é a questão da baixa natalidade da sociedade japonesa.

Assista a um vídeo exclusivo do festival:
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Literatura de celular?
March 29th, 2009 · 2 Comments

Recentemente, uma jornalista de um veículo brasileiro me escreveu pedido informações sobre os keitai shoosetsu (ケータイ小説), ou literatura de celular, um fenômeno no Japão. O texto final saiu babaquinha, não por falta de material, pelo menos da minha parte. Como muita gente me pergunta sobre isso, eu achei por bem usar o texto enviado a ela - acrescido de algumas coisitas mais - para mostrar um pouco sobre o que é esse negócio de literatura escrita pelo telefone celular.
O keitai shoosetsu, ou literatura de celular, surgiu em 2000, quando um cara que se apresenta como Yoshi publicou Deep Love, um romance adolescente, na internet. Hoje existem sites especializados em publicação de keitai shoosetsu que funcionam mais ou menos como blogs, só que com uma estrutura bem simples. A página é acessada pelo telefone celular e os textos digitados diretamente nele. Os capítulos são curtos e os boxes de entrada aceitam emoticons e outros ícones largamente usados na internet. Ou seja, o keitai shoosetsu oferece uma experiência de leitura que se parece muito com uma conversa pelo telefone celular.
O telefone celular é de uso massivo no Japão. As pessoas têm contato com a internet, em muitos casos, primeiro pelo telefone celular, não pelo computador. Para você ter uma idéia, na minha universidade tinha gente que não tinha internet em casa, nem computador. Passou a ter depois que entrou na faculdade. O acesso à internet no Japão é muito grande pelo celular. O celular é um elemento importantíssimo na cultura jovem do Japão. Uma pesquisa do Kyoiku Saisei Kodankai diz que 31% das crianças de 1o. ao 6o. ano de escolaridade e 58% das crianças da 7o. ao 9o. ano usam o aparelho. Faz-se tudo com o bichinho aqui. Desde o trivial que é telefonar, ler e enviar mensagens até procurar empregos (as pessoas aqui já trabalham desde o Ensino Medio, como part-timers, para juntar uma graninha). Então, porque não escrever/ler um romance pelo telefone celular? No horário do rush, o que mais se vê nos trens são pessoas com a cara enfiada em telefone celulares.
Além do uso massivo do telefone celular, a proximidade entre quem lê e quem escreve é o outro fator que tornou esses romances um sucesso. Escritores e leitores se confundem. Sabe aquela idéia do prosumer (producer and consumer) ou prossumidor, o cara que ao mesmo tempo em que consome (a internet, por exemplo) está também produzindo coisas. A internet trouxe a abertura que faltava para que as pessoas não sejam pura e simplesmente passivas receptoras. (O sucesso dos blogs se dá pelo fato de que quem escreve é, muitas das vezes, uma “pessoa como eu e você” que fala numa linguagem que é a linguagem que o leitor entende.) O leitor é encorajado a se tornar um produtor, também, aumentando o volume da rede de pessoas que produzem e (se) consomem. Isso aconteceu na música, no jornalismo, na imagem (fotografia e vídeo) e acho que o keitai shosetsu é uma das respostas da literatura a esse fenômeno. A linguagem dos textos é bem próxima do público consumidor porque estes e os produtores estão no mesmo nicho. Então, o que está ali é um produto que se aproxima muito daquilo que pensa e faz o jovem, que é o grande consumidor dele.
Mesmo com tanto sucesso, o keitai shosetsu gera controvérsias. Há cerca de dois anos, houve um imenso debate acerca da qualidade literária do romance de celular. Acho que é a mesma polêmica - já superada - acerca da música eletrônica, por exemplo. Algumas pessoas consideram que o keitai shoosetsu é uma nova expressão da literatura, que traz novos parâmetros e tal. Já outras acham que é lixo cultural, que os autores não são bons escritores, que os romances são cheios de clichês. Eu, particularmente, acho que os dois lados levantam aspectos pertinentes. O keitai shosetsu é cultura de massa, muito se parece, em temática, com aqueles romances que eram muito populares nos anos 70 e 80 no Brasil, que tinham nomes de mulher. Como naquela época, as fórmulas são muito parecidas e as histórias cheias de clichês.
Por outro lado, o formato impõe novos desafios. O modo como o keitai shosetsu é escrito aproxima muito a literatura de ficção da poesia concreta, por exemplo. As frases são curtas, sintéticas. Precisam ser. Como dito anteriormente, o número de caracteres por página é muito curto (100) e vale usar não apenas letras, mas emoticons e toda a gama de adaptações da linguagem que surgiram desde que a internet se popularizou entre os jovens. Portanto, é uma fronteira estética, sim. Mas, que está em processo. Eu acho que não há como comparar o keitai shoosetsu com a literatura que a gente conhece hoje. Você imagina o Guimarães Rosa escrevendo Grande Sertão: Veredas num telefone celular? São formatos diferentes. E vai ter gente que vai achar o seguinte: se não for igual a Grande Sertão: Veredas, é ruim. E outras que vão pensar o contrário: eu vou ler porque não é igual a Grande Sertão: Veredas. Não me atreveria a dizer o que mudou ou mudará na literatura japonesa, como arte, a partir dessa novidade. Mas, mudaram, sem dúvidas, os padrões de comercialização.
A história chega ao leitor pela primeira via internet e, quase sempre, de forma gratuita. Ela é testada e, se aprovada, vira um livro de papel. Não foi pensada para ser assim, mas se tornou um negócio assim. Para quem publica é um risco a menos, num mercado cada vez mais conservador no sentido de não querer correr riscos. E no Japão, o produto se completa passando pelo cinema e pela TV. Koizora (恋空), por exemplo, que é um dos maiores fenômenos do gênero, saiu na internet e foi um sucesso. A primeira página, segundo o counter deles, já foi vista por quase 15 milhões de pessoas. Depois, saiu o livro (em 2006) que vendeu quase 1,5 milhão de cópias. Depois foi quadrinizado, virou filme e série de TV! Sempre com muito sucesso e, claro, crítica. A obra é um romance sobre Mika, uma adolescente que se apaixona por um colega de escola. Ele é conhecido como o “rebelde” do pedaço mas, claro, ela cede a seus encantos. Porém, o rapaz decide terminar o relacionamento sem dar explicações. Koizora aborda uma série de problemas comuns a adolescentes: amor, bullying na escola, gravidez na adolescência etc.
Tem um outro mais recente que se chama Akai Ito (赤い糸) que chegou aos cinemas há alguns meses. Passou pelo mesmo caminho, chegou a virar game e tudo. Porém, essa força comercial vista em 2007, está caindo. Em 2008, por exemplo, não teve um keitai shoosetsu que tenha virado livro e entrou numa das mais importantes listas (a da rede Kinokuniya) dos 100 best sellers. Em 2006, foram cinco livros entre os dez mais. Ou seja, houve um boom nas vendagens e agora começa a ser visto quais autores terão apelos para lançar mais trabalhos. Também houve uma dispersão porque muitas das grandes editoras decidiram lançar os títulos e saíram muito mais desses shoosetsu em papel do que antes. Mas na internet, segundo diz o chefão do Maho no iRando, que é um dos maiores sites de keitai shoosetsu no Japão, o romance de celular não perdeu leitores na fonte, ou seja, na internet via telefone celular.
Enfim, soube que há artistas brasileiros explorando o telefone celular na literatura, mas de outras formas. As limitações são outras aí no Brasil. O acesso à internet via celular ainda é caro no país. Então, pelo que eu venho acompanhando, os artistas vêm explorando o formato SMS. É o caso do trabalho da poeta Beatriz Galvão que convocou artistas para enviar trechos de suas obras via telefone celular. Porém, vejam as diferenças, as obras não foram produzidas pelo telefone celular e não chegam completas a seus leitores. Portanto, o aparelho é apenas um veículo, longe de ser parte do processo criativo.
Então, fala você. O leitor acompanharia um romance pelo telefone celular? Escreveria uma obra usando o telefone celular?
Quer acompanhar um shoosetsu em português? Que tal esse Amor Em Verde e Vermelho? Trata-se um romance sobre uma menina adolescente que viaja com os pais para o Japão.
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